Morrendo por Sexo: série explora os desejos na luta contra o câncer
Produtores da série com Michele Williams falam sobre a adaptação da história real de Molly Kochan

Eu convivi com a palavra câncer na família desde muito nova, tendo perdido minhas duas avós e tia avós para a doença. Nunca é fácil, mas um detalhe me marcou profundamente quando pequena: um filme para a TV, feito com trilha sonora de John Denver, chamado Sunshine.
Minha avó, que já passava pela quimioterapia, se emocionou tanto que comprou a trilha sonora e a gente ouvia sempre. Sunshine era sobre uma jovem de 20 e poucos anos que recebe o diagnóstico de câncer e, na luta contra o tempo, decide gravar diários em fitas cassetes para que sua filha ouça dela pensamentos, conselhos e curiosidades – uma vez que ela não estará mais presente quando a menina crescer.
O filme do início dos anos 1990, Minha Vida, com Nicole Kidman e Michael Keaton, é a versão masculina de uma história semelhante. Por isso, quando soube da série estrelada por Michele Williams, Morrendo por Sexo (Dying for Sex) tive uma reação paradoxal de estranhamento e emoção.
A série, que é inspirada em uma história real, de Molly Kochan, é tirada do podcast Wondery criado por ela com sua melhor amiga, Nikki Boyer. Depois que Molly recebe um diagnóstico de câncer de mama metastático em estágio quatro, ela decide deixar seu marido, Steve, e começa a explorar toda a amplitude e complexidade de seus desejos sexuais pela primeira vez em sua vida. Ninguém pode negar que é um conceito ousado e diferente.
O podcast fez grande sucesso antes que Molly falecesse, em 2019, com apenas 45 anos, e chegou a duas roteiristas espetaculares e amigas: Kim Rosenstock (Glow, The New Girl e Only Murders in the Building) e Elizabeth Meriwether (The New Girl e The Dropout). Elas imediatamente entenderam a força da história que estava ali.
Diante da morte iminente, Molly decidiu viver a vida plenamente, sexualmente também, e registrou suas aventuras no podcast que fez grande sucesso. Ali, ela descreve suas experiências ao explorar seus desejos sexuais após seu diagnóstico, incluindo namoro e envolvimento com novos parceiros, com momentos engraçados e sinceros que destacam os desafios e as alegrias de buscar intimidade.
Vários episódios se aprofundam em diálogos com parceiros sexuais sobre limites, desejos e as complexidades emocionais da intimidade quando um parceiro está lidando com câncer. Histórias enfatizam a importância da comunicação nos relacionamentos.
Transportar com sensibilidade essa história tão atual e relevante demandava talento atrás das câmeras e nas telas, por isso a presença de Michelle Williams e Jenny Slate se revelaram tão cruciais para que a autenticidade estivesse presente em toda narrativa.
Um pouco antes da estreia da série, conversei com exclusividade para CLAUDIA com Kim e Elizabeth, passeando por todos os desafios e surpresas de uma série que certamente estará presente nas premiações dos próximos anos.
CLAUDIA: Posso avisar? Vocês me fizeram chorar e rir.
LIZ: Desculpe por ter feito você chorar, mas espero que tenha sido bom. [risos]
CLAUDIA: A iniciativa que Molly de fazer um podcast e registrar seus últimos anos meio que me colocou num set que vivi com minha avó e um filme antigo, Sunshine, então estava com medo de chorar muito, mas como não conhecia o podcast, foi uma surpresa! Como vocês descobriram a história Molly foi através do podcast?
LIZ: Um amigo produtor meu me enviou o podcast e eu simplesmente ouvi tudo em uma noite. Senti como se estivesse chorando. E estava! Tudo o que você acabou de dizer: chorando, rindo. Vou admitir que como um pouco puritana também fiquei chocada. Mas ao mesmo tempo senti como se tivesse acabado de abrir meu coração. Me senti tão só. Parecia tão profundamente, maravilhosamente humano e real e fiquei tão animada para contar a história dela e também colocar essas duas mulheres na televisão porque não tinha visto personagens como elas ainda. Ambas lidando com alguns dos problemas que pareciam um território realmente novo, sabe? Um desafio emocionante. Como trabalhei com Kim durante quase todo o New Girl e somos amigas desde que eu tinha 20 anos, enviei o podcast para ela.
CLAUDIA: Houve identificação da amizade de Molly e Nikki, né?
LIZ: Sim. Tipo, eu sabia que seria sempre divertido, e eu sempre estaria rindo com ela. A amiga que sempre que nos reunimos levantamos uma a outra, nos divertimos. Esse foi um aspecto emocionante do projeto.
KIM: Sim, poder fazer um show com uma amiga sobre duas amigas. Mas para mim, quando a Liz me ligou e perguntou se eu ouviria o podcast sobre uma mulher que está morrendo de câncer eu fiquei na dúvida. Era o início da pandemia da Covid-19 e achei que era um momento meio sombrio. Não sabia se devíamos, se seria bom para minha saúde mental. Mas aí ela disse “mas ela também está fazendo muito sexo” e aí disse “oh, com certeza! Envie para mim imediatamente!” [risos]. O sexo foi o que realmente foi o que me atraiu e o que acho tão emocionante em contar essa história é que é uma história tão única e incomum sobre uma mulher que está morrendo, mas também está tendo um despertar sexual simultaneamente. Pareceu um grande desafio retratar isso e senti que tinha tanto que poderíamos explorar.
CLAUDIA: Como Molly faleceu em 2019, vocês chegaram a conhecer a Nikki? Qual foi a reação dela?
LIZ: Pois, é nunca conhecemos Molly pessoalmente, mas sim Nikki, em 2020. Foi incrível tê-la no processo porque ela faz um trabalho incrível de ser a defensora de Molly mantendo sua memória conosco sempre desta maneira linda. Nós estávamos tão cientes de sua bravura, de ambas as bravuras, de colocar a história lá fora e sempre querer ser verdadeira. Nós sempre quisemos sentir que era algo que Molly teria aprovado. Que fosse certo.
CLAUDIA: Senti como se o espírito dela estivesse mesmo ali. O que me leva à questão do elenco. Como Michelle Williams entrou no projeto? Ela ficou muito parecida com a Molly fisicamente!
KIM: Honestamente, foi como um elenco dos sonhos que acho que nenhuma de nós jamais pensou que conseguiria. A pessoa absolutamente ideal para o papel era Michelle Williams e foi completamente incrível e chocante quando ela quis se encontrar conosco e nos contou que também tinha sido impactada pelo podcast do mesmo jeito que nós, que sentiu essa conexão profunda com Molly. E eu acho que ficou bem claro quase imediatamente que ninguém mais poderia interpretar o papel porque Michelle sentiu que era exatamente o tipo de personagem que ela queria interpretar, com temas que a interessavam.
LIZ: A vulnerabilidade e a coragem de Molly, realmente falaram com Michelle como mulher e como artista. Ela é tão engraçada nisso e não temos muitas chances de realmente ver o quão engraçada Michelle pode ser. Amei que ela estava tão animada e entendeu o que estávamos tentando fazer com a comédia, estar nesse lugar alegre e humano homenageando Molly. Michelle simplesmente pulou de cabeça e encarou tudo de frente. Não poderíamos ter feito o show sem ela de forma alguma.
CLAUDIA: Sim, a série fala de tantos tabus e temas tão atuais e sensíveis. Se lançar nessa busca quando tem tempo tão limitado e olhar positivamente o máximo que pode através disso. E vocês tiveram que colocar isso em oito episódios. Como foi o trabalho?
LIZ: Acho que a maneira como parte do sexo “mais pervertido” da série tem sido retratada historicamente na televisão e nos filmes tem sido um pouco à distância, tipo, ‘oh, essas pessoas são meio estranhas ou problemáticas por querer isso’. E no começo, decidimos que nunca iríamos tomar essa atitude: de forma dramática ou cômica. Não queríamos nunca fazer disso o alvo da piada. Sempre seria para abraçar todo o caos e bobagem e esquisitice de tentar se encontrar sexualmente, mas nunca tirar sarro disso. Foi uma maneira útil de passar por alguns desses momentos, e espero que isso apareça para o público. Espera, qual era a pergunta? [risos] O desafio! Sim, existem muitos tabus, mas acho que estávamos muito cientes de querer tirar um pouco da vergonha em torno deles. Foi realmente inspirado por Molly porque Molly era tão aberta com esses homens e não julgava. É tão comovente. Para alguns desses homens foi uma mudança de vida conhecer Molly, mesmo que brevemente porque ela meio que aceitou o desejo deles sem julgamento. E tentamos ter essa atitude também. Embora, sim, definitivamente houve momentos em que eu estava cobrindo meu rosto com minhas mãos. [risos]
KIM: Sim [risos], mas como tivemos a oportunidade incrível – como mulheres – de fazer um show sobre mulheres e seus corpos com uma rede que foi realmente criativamente solidária, foi incrível. Não tínhamos visto antes ou mostrado sexo assim. Por exemplo, ser capaz de mostrar uma mulher se masturbando com um vibrador e realmente mostrar tudo sem corte. São coisas que só estamos acostumadas a ver o começo e o depois, mas não a coisa real. E então eu acho que isso foi realmente emocionante. E essa ideia que, tipo, você sabe, nós poderíamos mostrar todas essas diferentes maneiras de as pessoas encontrarem prazer e todas essas diferentes maneiras que esse desejo pode se manifestar. Encontros sexuais entusiasmados e prazerosos que talvez não se pareçam com o que estamos acostumados a ver na tela. Nós falamos sobre isso: há algo terrível que acontece com as mulheres na nossa sociedade que ainda pergunta ‘o que é normal?’ ‘O que é sexo normal?’ e essa série pareceu uma ótima oportunidade para reformular não como ‘o que é normal’, mas o que você gosta, o que é bom. Não se preocupe, não existe sexo normal. É ridículo pensar assim, é prejudicial. Outra questão também é tirar o monopólio que pessoas bonitas e saudáveis tiveram sobre sexo nas telas. Precisamos expandir quem vemos fazendo sexo. Muitas vezes na televisão e nos filmes, por muitas razões, é como uma espécie de apenas pessoas bonitas e saudáveis fazendo sexo. É bom reconhecer que essa é realmente uma pequena porcentagem do sexo que está acontecendo no mundo.
CLAUDIA: Verdade!
KIM: Você perguntou sobre os oito episódios, foi mesmo muito difícil reduzir tudo porque há tanta coisa na série. Mas eu acho que para nós foi sobre a amizade, a história de amor dessa amizade que funcionou como o norte da trama. Queríamos garantir que estamos seguindo essa jornada, esse relacionamento, mas também a cada episódio realmente mostrar a jornada de Molly na busca para conhecer seu corpo, amar seu corpo e se curar. Curar seu corpo enquanto ela está morrendo simultaneamente, mas continuar se certificando. Tivemos esses grandes momentos em cada episódio em que ela dá um passo à frente e se aproxima mais de conhecer a si mesma. Isso pareceu nos pareceu útil quando tivemos que tomar algumas decisões realmente difíceis sobre o que cortar e o que manter.
CLAUDIA: O que levaram dessa experiência para vidas de vocês? O que esperam que as mulheres ao redor do mundo entendam?
LIZ: Eu acho que Kim meio que disse isso. Essa ideia de apenas abrir a conversa em torno de muitas dessas questões, mesmo que seja só com você mesma. Isso aconteceu comigo, certamente. Deveríamos estar falando mais sobre todas essas coisas e explorando sexo e meio que tirando um da vergonha sobre o assunto. Na minha vida pessoal, me fez perguntar, quem são as pessoas na minha vida que me trazem alegria e que me fazem sentir bem. De passar a certificar que propositalmente passe tempo com essas pessoas o máximo possível, porque, você sabe, a vida fica tão ocupada com trabalho e filhos e você pode se encontrar não pensando, mas sobre a vida e se está se divertindo. Outra coisa: o jeito que falamos com nossos médicos e o jeito que podemos nos defender em situações médicas. Acho que isso é uma parte muito grande dessa história. Molly aprendendo a assumir o controle do processo de tratamento dela com o médico. Acabou que não falamos sobre isso, mas é importante aprender que você pode confiar que conhece seu próprio corpo e que você pode defender a si mesma em uma situação médica, fazer sua própria escolha. É muito poderoso.
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