Entrevista: Bazuros fala sobre “Mucha Lucha, Poca Plata”, um álbum de cumbia punk paulistana
Hiro (guitarrista) e Vitor (tecladista) falam sobre como a banda foi desenvolvendo sua sonoridade, suas influências, a colaboração com outros artistas em “Mucha Lucha, Poca Plata”

entrevista de Alexandre Lopes
Em um momento em que a cumbia ressurge e se expande nas maiores cidades do mundo — de Buenos Aires a até mesmo Tóquio —, o Bazuros contribui para colocar São Paulo no centro dessa cena internacional. Com um som que mistura a essência do gênero com influências de punk, reggae, chicha e outras sonoridades, a banda paulistana traz em seu primeiro disco cheio, “Mucha Lucha, Poca Plata” (2025) uma interpretação entusiasmada e bem própria do estilo.
O Bazuros nasceu no bairro do Bom Retiro, em 2020, com a proposta de mesclar a energia do punk com a cumbia, um dos ritmos mais emblemáticos da América Latina. Influenciados por diferentes vertentes do gênero – como a cumbia villera de Buenos Aires, a chicha dos migrantes andinos em Lima e a rebajada de Monterrey – a banda construiu uma sonoridade autêntica que costura suas raízes latinas com a cara cosmopolita de São Paulo. Em apenas quatro anos de estrada, o grupo conquistou espaço tocando em festas e eventos underground, dividindo palco com as influentes Mercenárias e o lendário Azymuth. A energia de seu som é calcada em faixas autorais, instrumentais e psicodélicas, além de covers que transitam de Pibes Chorros a Clash.
Em 2020, a banda lançou seu primeiro EP, “Bazuros”, com seis faixas registradas ao vivo que já demonstravam o potencial de seu som em músicas como “Luchador”, “Fernet Azteca”, “Visualizou E Não Respondeu” e “Stoner Cumbia”. Agora em 2025, o grupo dá um passo maior e lança seu primeiro álbum de estúdio, “Mucha Lucha, Poca Plata”, produzido por Paulo Kishimoto (Orquestra K, La Cumbia Negra, Pitty, Forgotten Boys e Riviera Gaz) e lançado pela Laja Records. O disco reafirma o leque de sonoridades do Bazuros, combinando cumbia com punk, reggae e experimentações musicais, além de trazer participações especiais do rapper boliviano Delapaz, as percussões de Mariano Sarine (Deaf Kids), os vocais de Helleno (Os Universais) e Paula Rebellato (Rakta e Madrugada), além da poesia de Givly Simons (Figueroas).
“Mucha Lucha, Poca Plata” não é só o título do álbum: é uma expressão citada por um amigo da banda que sintetiza a luta diária dos nove integrantes – e de tantas outras pessoas no Brasil e na América Latina – em busca de reconhecimento, com pouco dinheiro, mas muita vontade e amor pela música. Em entrevista por e-mail ao Scream & Yell, Hiro (guitarrista) e Vitor (tecladista) falam sobre como a banda foi desenvolvendo sua sonoridade, suas influências, a colaboração com outros artistas em “Mucha Lucha, Poca Plata” e as expectativas para o futuro do Bazuros. Eles também comentam sobre o show de lançamento do disco, que acontecerá em 11/04, no Sol y Sombra, no Bixiga, em São Paulo.
Como vocês descreveriam a evolução do som da banda desde o EP “Bazuros” até o novo álbum “Mucha Lucha, Poca Plata”?
Hiro: De cumbia em cumbia a banda foi formando sua sonoridade. As primeiras composições foram mais complicadas porque a gente ainda estava em processo de maturação, buscando encontrar uma sonoridade sem ficar preso aos clichês. Como tudo na vida, a prática constante foi elevando o nível e a complexidade dos arranjos. Depois de meia dúzia de sons próprios prontos, a gente foi pegando a mão e sacando melhor o que funcionava e o que não funcionava. Nada acontece do dia para a noite. Nesse disco, temos algumas canções antigas que ficaram de fora do EP e que tivemos a oportunidade de gravar melhor, e coisas mais novas que marcam a fase atual da banda.
Vitor: Em termos de composição, acho que o processo foi o mesmo do primeiro disco: em umas o Hiro chegou com os riffs e o desenho inteiro pronto, outras eu fiz a guia no computador e mandei pra ele, e assim a gente foi montando o repertório. Acho que uma diferença importante é que das oito músicas desse disco, só a “Romântica” e a “Mucha Lucha, Poca Plata” são mais novas, músicas que eu compus já pensando em fazer parte de um disco e tal. As outras são músicas que a gente pôde amadurecer bastante ao vivo antes de gravar.
O título “Mucha Lucha, Poca Plata” parece refletir a realidade de grande parte das bandas independentes no Brasil. Mas qual foi a ideia real para batizar o disco desta forma? Como ele se conecta com a banda?
Vitor: Essa frase foi dita pelo nosso amigo e técnico de som Leão, em uma das muitas viagens de UberBag lotado de instrumento e equipamento, já sabendo que se rolasse cachê naquela noite seria muito pouco. Mas acho que esse perrengue de ter banda é só um fragmento da realidade da maioria das pessoas que vivem em países de terceiro mundo. No próprio Bazuros, tem pintor de parede, moldureiro, cozinheiro, tatuador, artista de rua… Enquanto a gente fala aqui, o Dodô, nosso baterista, está trabalhando há quatro meses de sol a sol na cozinha de um navio pra conseguir juntar uma grana. E acho que a cumbia, por ser um estilo musical de influência africana e que se desenvolveu na América Latina, representa muito bem essa condição do povo que luta muito e sofre pra ganhar o suficiente.
Além de cumbia, chicha, punk e reggae, o que mais a banda diria que serve como influência, tanto direta como indiretamente, para a sonoridade da Bazuros? Quais foram as principais referências sonoras e culturais para a criação do álbum?
Hiro: Nenhum membro da banda conhece ou toca cumbia desde novo, a maioria dos integrantes passou por bandas de outros estilos até finalmente tocar cumbia no Bazuros. A gente precisou ir montando esse quebra-cabeça aos poucos, pesquisar muito som e isso tudo acaba sendo um fator determinante na sonoridade da banda. De modo geral, a cumbia vai se adaptando ao meio em que é produzida, vide a cumbia villera argentina, a chicha peruana, a cumbia sonidera mexicana e por aí vai. Na minha opinião, a cumbia que tocamos sintetiza muito bem o perfil multicultural que a gente encontra na metrópole de São Paulo, que abriga gente de tudo que é canto do país e do mundo, cada qual colaborando de alguma forma pra formar a identidade da cidade.
Vitor: Além do que o Hiro disse, acho que tem umas referências que não são diretas, mas que fizeram parte de algum jeito ali na hora de compôr. Tem dois filmes, por exemplo, um mexicano, “Ya no estoy aquí” (de Fernando Frias, 2019), e outro colombiano, “Los reyes del mundo” (de Laura Mora, 2022), que assisti e ficaram muito na cabeça na época que vieram a “Rebajada” e a “Wepa”. Fora umas coisas mais de brega, Reginaldo Rossi, Edson Wander, Calcinha Preta, que aparecem muito na “Ruínas” e na “Romântica”.
O disco conta com várias colaborações interessantes, como o rapper boliviano Delapaz, Helleno, Paula Rebellato, Mariano Sarine e Givly Simons. Como surgiram essas parcerias e o que cada uma delas trouxe para as faixas?
Hiro: A grande maioria das parcerias foram sendo formadas com o decorrer dos shows e das amizades que fomos fazendo durante a jornada. No início a gente sempre dividiu palco com bandas de punk rock e música experimental no geral. Tirando a galera da La Guacamaya, não tinham outras bandas de cumbia que a gente conhecesse ou festas e estabelecimentos focados em música latina que chamavam a gente pra tocar. A Paula (Rebellato) tocava comigo no Duplo e é uma das pessoas responsáveis pelo Porta, lugar que desde o início abriu espaço pro Bazuros. O Mariano (Sarine) é conhecido de longa data de alguns membros da banda e, antes de gravar o disco com a gente, já tinha tocado algumas vezes com os Bazuros a convite do Dodô, nosso baterista, que além de tocar com a gente toca também na banda do Helleno. Tudo foi se encaixando.
Vitor: O Delapaz foi um encontro legal também. A gente conheceu ele numa festa do Doña Bertha, restaurante peruano que promove shows de cumbia, e a conversa bateu desde o começo. Além de rapper, ele organiza uma batalha de rima em espanhol em São Paulo, um rolê muito louco. O Givly Simons foi na real algo inesperado, porque eu escutei bastante os discos do Figueroas anos antes de formar o Bazuros, e um dia ele interagiu com a gente no Instagram e eu fiz o convite.
A produção foi feita por Paulo Kishimoto, conhecido por seu trabalho com bandas como Orquestra K, Pitty, Forgotten Boys, Riviera Gaz, entre outros. Como foi trabalhar com ele?
Hiro: O Paulo foi uma peça chave e de extrema importância para que tudo desse tão certo no processo de gravação e produção do álbum. Antes de entrar em estúdio, uma das nossas grandes preocupações era encontrar um parceiro que já tivesse intimidade com o assunto e que soubesse trabalhar nesse recorte do estilo. Um profissional qualificado, mas que não tivesse conhecimento na causa poderia arruinar tudo. Existe um abismo gigante entre compor e tocar cumbia nos shows e transformar isso em um disco que soe bem para todo mundo. E o Paulo arrebentou, não tinha como ter sido melhor. Ele já tocava e produzia cumbia muito antes da gente ter tido a ideia de montar a banda.
A cena de cumbia está sendo cada vez mais notada no Brasil. Como vocês veem a contribuição do Bazuros para esse movimento, especialmente no contexto de São Paulo?
Hiro: A gente começou a ensaiar num contexto de final de pandemia, tudo era muito abstrato e a chance de dar certo era a mesma chance de tudo ter sido um fiasco. Conseguimos reunir um pequeno grupo de pessoas interessadas no mesmo assunto e aos poucos a banda foi aumentando o número de integrantes e as coisas foram acontecendo. Não tenho dúvidas que muita coisa mudou desde que começamos; São Paulo está super receptiva para a música latina no geral e os Bazuros são sempre muito bem recebidos por onde passam. Da minha parte, não consigo mensurar exatamente onde a gente se encaixa nisso tudo e o quanto contribuímos para algo. Mas acho válido pontuar que mesmo tocando alguns covers e fazendo versões de músicas conhecidas, o Bazuros é uma banda majoritariamente autoral, que sempre buscou fazer suas próprias músicas. Talvez esse seja nosso grande diferencial. No mais, espero que nosso disco chegue ao máximo de lugares possíveis e que ele contribua para que cada vez mais as pessoas abram espaço para a cumbia. Por favor, montem bandas novas, produzam muitas festas e chamem cada vez mais a gente pra tocar! Com isso a cena vai se solidificando e dia a dia a cumbia brasileira contemporânea vai marcando presença no cenário mundial.
Como o contexto local e as experiências de vocês em São Paulo influenciam a música e as letras do grupo? E como vocês acham que essas referências locais podem ressoar com o público de outras localidades?
Vitor: Acho que o contexto já influencia mesmo quando a gente toca covers. Quando a música é autoral essa influência de São Paulo é maior ainda. E principalmente porque a gente desde o começo permitiu que essas outras referências, como o punk, o reggae, o rap e outros rolês da cidade, fizessem parte da cumbia que a gente faz, sem a preocupação de “não soar como cumbia”. Essa mistura é que forma a nossa sonoridade. E sobre como isso ressoa em outros lugares, acho que é um som que tem potencial pra viajar e ser ouvido em outros lugares, principalmente porque ele é sincero. Não é uma cópia do estilo de algum país específico, embora a gente tenha bastante influência da cumbia argentina e peruana, por exemplo. Uma prova disso é que um dos amigos que fizemos nessa jornada é um DJ de cumbia do Japão, o Sonidero Tokyo. Acho que as fronteiras são pequenas para a música.
Hiro: Em relação ao público de outras nacionalidades, principalmente no contexto dentro de São Paulo, a banda sempre procurou ficar atenta pra não cometer nenhuma gafe muito séria ou ultrapassar alguma barreira que fizesse com que parecesse um pastiche ou soasse caricatos dentro da cumbia. Por isso a ideia inicial de usar samplers ao invés de cantar em espanhol e nunca combinar um dress code nos shows. Eu pessoalmente fiquei mais sossegado depois que dividimos palco com bandas e projetos formados por estrangeiros que residem em São Paulo e tudo correu bem e o nosso som agradou.
O que o público pode esperar do show de lançamento? Vai ser uma experiência diferente do que a banda já fez antes?
Vitor: O lançamento do disco acontece no dia 11 de abril, no Sol y Sombra, no Bixiga em São Paulo. O Sol y Sombra é um lugar muito especial pra banda. Ele é hoje o principal pólo de música latina em São Paulo, onde já fizemos grandes shows, porém essa será sua última festa nesse endereço. Então fazer esse lançamento nesse dia e nesse lugar é bem simbólico pra banda, pro bar e pra cena como um todo. Pra mim, pessoalmente, traz um significado de resistência, de que a cumbia em São Paulo é grande e vai crescer ainda mais, e que casas novas vão surgir – inclusive o Sol y Sombra em outro endereço, tomara que em breve. Além disso, nesse show a gente vai juntar convidados do disco como a Paula Rebellato, o Mariano, o Helleno, o Kishimoto… É uma reunião bem especial de pessoas que nunca tocaram no Sol y Sombra, pra gente juntar esses vários universos. E teremos também amigos discotecando, como o Felix da Punk Reggae Party e o Douglas do Deaf Kids. Vai ser uma festa muito louca com cumbia, reggae e punk!
O que podemos esperar após o lançamento de “Mucha Lucha, Poca Plata”? Há planos de turnê, clipes ou outras novidades?
Hiro: Por ora a ideia é tocar no máximo de lugares possíveis e através da repercussão positiva do álbum conseguir alçar voos maiores e finalmente entrar no circuito do Sesc e dos grandes festivais, eventos como a Virada Cultural e por aí vai. Sem dúvida seria incrível poder conhecer melhor o país e quem sabe o mundo fazendo uma turnê com a banda. A gente sabe o quanto é difícil pra uma banda nessa escala do underground e com tantos integrantes conseguir viabilizar esse tipo de coisa, mas sonhar é de graça, não é mesmo? Estamos muito felizes com o lançamento em CD, mas seguimos firmes na procura de parceiros para viabilizar um lançamento em vinil no segundo semestre. Mantenha-nos informados caso você seja essa pessoa! E pra finalizar, muito obrigado a todo mundo que acredita no nosso trabalho e contribui diariamente para que a gente siga fazendo o que gosta.
Vitor: É isso que o Hiro disse… Trabalhar bem esse disco, correr o Brasil e o mundo, se possível, e conhecer gente nova, novas bandas, público novo. Alimentar nossos sonhos de novas vivências pra compormos coisas novas e em breve começarmos um disco novo. Obrigado e apoie sua cumbia local!
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.