Com “Novela”, Fito Paez exorciza ambições do passado pelo filtro da maturidade e da experiência
Fito começou a elaborar o que seria “Novela” por volta de 1988, numa tentativa de se despir de toda a tragédia pessoal que havia permeado “Ciudad de Pobres Corazones” no ano anterior

texto de Davi Caro
O presente de Fito Paez nunca esteve tão povoado de passado quanto agora. Desde 2022, o artista e compositor argentino vem transitando um período no qual parece revisitar o próprio legado mesmo que tentando (às vezes conseguindo, às vezes não) driblar a vã armadilha da nostalgia. O rosarino partiu em uma extensa turnê em comemoração aos 30 anos de seu “El Amor Despues Del Amor” (que inclusive o trouxe ao Brasil mais uma vez), conduziu a regravação deste mesmo álbum com novos arranjos e participações ilustres, e realizou uma série mais limitada, embora não menos bem sucedida, em que celebrou seus “Del 63” (1984) e “Circo Beat” (1994), ao mesmo tempo em que preparava terreno para seu mais recente trabalho. Lançado no último 28 de março, “Novela” é talvez o disco mais ambicioso de Paez, e com certeza tem tudo para figurar entre seus melhores trabalhos. Apesar de toda a novidade, no entanto, o álbum não deixa de ser diretamente ligado, também, com o passado remoto do artista.
Em suas próprias palavras, Fito começou a elaborar o que seria “Novela” por volta de 1988, numa tentativa de se despir de toda a tragédia pessoal que havia permeado “Ciudad de Pobres Corazones” no ano anterior. As ideias ambiciosas (junto ao plano de realizar um filme que narrasse a história por meio das faixas), frente à necessidade de apaziguar uma demanda comercial intensa, acabaram sendo deixadas temporariamente de lado, embora muitos dos elementos pensados para o projeto – um disco duplo, conceitual, capaz de trazer uma narrativa coesa ao longo de suas canções – fossem aparecer em lançamentos durante a década seguinte. As demos de “Novela” circulariam como gravações piratas ao longo dos anos subsequentes, adquirindo o status de “cult” em numa época em que a possibilidade de Paez retornar às músicas pensadas era uma incerteza. Tantos anos depois, porém, os planos finalmente se concretizaram, e o novo disco se materializou após um longo período de gravação (que aconteceu em estúdios na Argentina, na Espanha e também em Abbey Road) e cercado de expectativa. Afinal: “Novela” faria jus à idealização original?
O enredo gira em torno de uma antiga escola de feitiçaria chamada Universidad Prix (que, não por acaso, dá nome à primeira das 25 músicas do disco). Através das letras e de diversos interlúdios falados que separam as canções durante 68 minutos, o ouvinte é apresentado às bruxas Maldivina e Turbialuz, ambas determinadas a se provarem como praticantes das artes mágicas. Ao mesmo tempo em que é introduzido um circo, chamado (naturalmente) Circo Beat, que chega a um povoado argentino conquistando todo o povo, incluindo um jovem chamado Jimmy. Idealista e músico, o rapaz entra em rota de encontro com as jovens bruxas, ao mesmo tempo em que desenvolve um romance com a personagem Loka, e se depara com seu antagonista na forma do domador de leões Julius, por si só cheio de seus próprios dilemas e traumas. Jimmy, Maldivina e Turbialuz embarcam, então, em uma viagem de exploração e feitiçaria na qual precisam se reafirmar como indivíduos e descobrir suas próprias virtudes.
Se alguns elementos da lúdica narrativa descrita acima soam familiares, pode ser apenas uma mera coincidência… ou não. A ideia de uma escola de magia, embora remeta diretamente à saga de Harry Potter, não possui nada a ver com a série de livros (como o próprio Paez fez questão de reforçar em uma entrevista especial concedida à Rolling Stone Argentina). Já o nome do protagonista Jimmy foi deliberadamente escolhido, e é um testamento da conexão musical e estética do álbum com os trabalhos mais celebrados do classic rock: o jovem protagonista do imortal “Quadrophenia”, do The Who, é um mod também chamado Jimmy – que também embarca em uma jornada de autoconhecimento e desilusão. Mirando na imersão do deep listening, “Novela” é um disco que funciona muito bem em conjunto com (ou, diriam alguns, apesar de) seu conceito e da história que procura contar.
De fato, “Novela” é certamente um de seus trabalhos mais musicalmente ricos. Fito fez questão de salientar a importância de absorver o álbum como uma obra completa, do começo ao fim; a escolha dos dois cortes de divulgação, porém, são indicativos da infalível sensibilidade pop do artista. “Cuando el Circo Llega al Pueblo” é sessentista em seu DNA, seja em seus violões rítmicos, seja em seu som de órgão. Já “Superextraño” é mais moderna, juntando harmonias e timbres synthpop com refrãos lindíssimos, além de versos que fazem referência a Charly García, Luis Alberto Spinetta e a “Sir” John Lennon (com direito à citação da clássica “Power to The People”).
O restante do repertório, no entanto, é equilibrado em melodias que poderiam facilmente ter aparecido em discos anteriores de Paez (“Maldivina y Turbialuz”, “Aceptémoslo”), baladas lindíssimas conduzidas ao piano (“Los Corazones Necesitan Amar”, “Cruces de Gin en Sal”, “Love Is Falling Over My Heart”), rocks furiosos (“Jimmy Jimmy”, “Argentina Es Una Trampa” – o nome da banda do protagonista – “Modo Carrie” e “El Triunfo del Amor”) e canções menos tradicionais, sejam nos ukuleles de “Miss Understood”, na sutileza instrumental de “El Último Apagón”, ou no minimalismo de “Balas y Flores”.
A grandiosidade e o esmero dos arranjos, além de rememorar alguns dos discos que inspiraram a concepção de “Novela” – além do já citado “Quadrophenia”, alguns trechos fazem lembrar de “Revolver” e “Sticky Fingers”, apenas para citar alguns – também acabam, inevitavelmente, indicando o próprio catálogo de Paez. Não são poucas as faixas que poderiam se encaixar em discos como “Abre” (1999) ou nos três volumes de sua “Futurologia Arlt” (2022). Alguns dos detalhes envolvidos na trama podem parecer pura auto-referência, quando na verdade remetem à própria trajetória complicada pela qual o disco conceitual passou. O circo que figura na história, por exemplo, não compartilha seu nome com o álbum lançado pelo artista em 1994 por acaso – a própria canção “Circo Beat” figurou, outrora, como parte do repertório embrionário de “Novela”. É tentador interpretar estas e quaisquer outras referências como passos discretos em direção à indulgência criativa; Fito se mostra, vez após vez, estar muito além disto, no entanto.
O resultado final de “Novela”, porém, suscita uma questão antiga, e que, para muitos, cobra respostas mesmo hoje em dia: é possível obter uma experiência completa de um disco conceitual a despeito da narrativa contada pelas faixas? A desconexão com a história apresentada não resulta necessariamente em uma falta de atenção ou apreço para o que pode ser um bem trabalhado conjunto de canções, bem arranjadas e compostas como são. Longe de dizer que o enredo de “Novela” seja mal-elaborado ou coisa do tipo: é válido apostar, entretanto, que o apelo mais lúdico, fantasioso e teatral do álbum seja menos atrativo a audiências com menor predisposição à experiência de deep listening.
É um paradoxo interessante, que poderia ser prejudicial ao aproveitamento de outras obras deste tipo, mas que não se apresenta como um obstáculo aqui. E mesmo os menos propensos a este tipo de experiência podem se sentir afortunados ao fim da jornada – a exemplo do próprio Fito, que soa rejuvenescido ao final de “Novela”. Muitas vezes, leva tempo para conseguir concretizar ideias que, por mais elaboradas que sejam, requerem vivência, experiência e maturidade. Quem dirá nos dias atuais, em um momento no qual o consumo de música é banalizado ao ponto de uma ideia como a que norteia “Novela” (enquanto um disco conceitual, e duplo) parecer estapafúrdia em meio à fragmentação decorrente da popularização do streaming – um desafio enfrentado recentemente, deste lado, por Nando Reis, que conseguiu êxito com seu último trabalho, um álbum quádruplo. E Paez, do alto de seus mais de 60 anos, se mostra mais preparado do que nunca para defender uma visão que teve por volta de seus 20 e poucos verões de vida. “Eu era muito velho então; sou muito mais jovem agora”, o argentino parece dizer, citando um sábio poeta norte-americano. É em nessa nova juventude, tão bem representada por “Novela”, que Fito Paez mostra encontrar a força para exorcizar suas mais profundas ambições e, bem sucedido, desviar das traiçoeiras armadilhas do saudosismo e da nostalgia para viver um brilhante futuro que começa não há quase quatro décadas, e sim agora.
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.