DJs queers falam sobre a noite paulistana e a importância do underground

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Apr 2, 2025 - 18:43
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DJs queers falam sobre a noite paulistana e a importância do underground

Compondo as trilhas sonoras da noite de uma das maiores cenas undergrounds do mundo, os DJs de São Paulo representam quando o assunto é inovação musical e identidade marcante. Sob as luzes das pistas quentes das boates, esses DJs são maestros de som que mistura techno mais tradicional, house, funk ou tecnomelody.

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Oferecendo uma visão diversa da cena atual, cinco DJ’s LGBTQ+ de destaque no underground nos contaram como entraram na noite paulistana, como ela é hoje e a importância da comunidade que se forma no entorno destes artistas.

AYA IBEJI

Vindo para São Paulo do Rio de Janeiro, Aya Ibeji está em ascensão. A DJ, que já tocou em festas como Novo Affair e Boiler Room, é um dos maiores nomes quando o assunto é house em São Paulo, trazendo sempre a cultura negra em seus sets, além de também produzir suas próprias faixas.

“Só fui me reconhecer e saber que existiam outras possibilidades de viver a partir do underground. A cena me ajudou muito a me encontrar enquanto travesti e me enxergar enquanto uma pessoa queer. Sinto que muitas e muitos de nós, pessoas trans e racializadas, acabamos sendo nossas próprias referências de caminho e possibilidade, fico muito feliz de hoje existir esse leque de artistas.

Para mim, música é troca. É como conseguimos expressar sentimentos, conectar pessoas e meus amigos viraram minhas maiores referências. O underground é lugar onde esses corpos conseguem ser aceitos e vistos, lugar onde a criatividade toma outro rumo”. 

HIGASHI

Um dos idealizadores da Vetor Magazine, revista documentando a cena underground e LGBTQ+ internacional, Higashi começou na área da moda e fotografia, mas, rapidamente percebeu seu desejo por estar atrás da CDJ. Com uma seleção que mescla techno com pop, o DJ conquista cada vez mais espaços e admiradores.

“O underground é um espaço seguro e de acolhimento. É importante termos esse lugares parar nos expressarmos, com esse senso de pertencimento e comunidade. Sinto que a cena local é repleta de talentos e potências, que conquistam cada vez mais espaços, não só Brasil, mas internacionalmente, também. São muitos corpos políticos que representam mais que a si mesmos. 

Boa parte da minha pesquisa parte de artistas locais, todos me influenciam diretamente – sinto que, hoje em dia, a cena é uma fonte constante de referência, trazendo ainda mais olhares e atenção de pessoas de fora dessa comunidade e do mainstream”.

KONTRONATURA

Residente na Mamba Negra, Kontronatura já passou por inúmeras boates e festas, sempre expandindo sua pesquisa, mas, nunca abrindo mão de suas raízes na música afro. O artista, inclusive, é o criador do projeto Fuleragi + Transmascuaulas, que se foca na formação de discotecagem para homens trans e pessoas transmasculinas.

“O underground é um lugar onde você pode ser você mesmo, ter sua individualidade no meio de todo mundo — e isso é uma coisa muito imponente, muito valorizada. Quando entendi isso foi quando me apaixonei pela cena. Comecei no início de 2019, quando fazia parte de um coletivo somente focado em música afrodiaspórica, então, toda minha pesquisa começou por aí. Mas fui pegando gosto pela coisa e expandindo.

Nessa cena, me sinto muito privilegiado de estar cercado de pessoas muito talentosas, que são eles mesmos dentro da complexidade sonora deles. São pessoas que eu sou o maior fã, e elas são meus fãs, são quem mais me motivam e me dão força para continuar vivendo e acreditando, nos retroalimentamos em comunidade.

Para mim, o underground é referência para tudo, é o lugar onde todas as ideias estão fermentando, ideias únicas e muito para frente – mas, só é uma troca justa quando o underground está bebendo dos acessos que o mainstream pode oferecer, se não, é uma forma de colonização”.

MISS TACACÁ

Paraense, Miss Tacacá é uma das artistas mais únicas da cena underground atual – se encontrando em uma mistura de tecnomelody com trance e techno. Uma das pioneiras nesse som, Tacacá é conhecida nacional e internacionalmente, sendo a mente por trás do primeiro Boiler Room em Belém, todo focado no tecnomelody.

“O underground é um lugar que acolhe a diversidade, é um ambiente que dá palco para mostrarmos nossas peripécias, nossos talentos, é um espaço onde as pessoas tem a oportunidade de serem elas de uma forma mais nua e crua. É uma cena muito importante para a comunidade por conta de manter portas abertas — tem pessoas que são mainstreams dentro do underground e vice-versa.

Acredito que meu som seja muito único até no underground, é música eletrônica da Amazônia. Tive que misturar um pouco do tecnomelody, do rock doido, com o techno, com o trance para que esse ritmo começasse a ser introduzido como normal no ouvido da galera que frequenta a noite de São Paulo e hoje em dia, no Brasil inteiro”.

VICTIN

Conhecido por seu trabalho de anos na Mamba Negra, Victin é um dos nomes mais versáteis da cena — sua pesquisa corre pelo techno ao funk, passando pelo house, incluindo até mesmo suas tracks autorais. O DJ também é criador da Bicuda, coletivo e festa underground em Campinas, no interior de São Paulo.

“A cena underground sempre permite uma liberdade criativa que muitas vezes falta no mainstream, permitindo que artistas LGBTQ+ expressem suas identidades e experiências sem limitações. Mas, acho que o cenário está vivendo um momento desafiador — a saturação desses grandes eventos tem dificultado a visibilidade de projetos independentes.

Ainda assim, sinto que o underground e o mainstream estão paralelamente conectados. O que surge em espaços alternativos frequentemente encontra seu caminho até o grande público, seja de forma direta ou indireta.

O underground oferece uma liberdade pessoal essencial para o fortalecimento da nossa comunidade. Nas minhas pesquisas e no estilo que desenvolvi ao tocar, percebo que acabo influenciando outros DJs. E esse processo de troca é totalmente recíproco”.

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