“Sla Radical” e a música “de computador” no Brasil dos anos 90
Fábio Fonseca acompanhou as novas possibilidades de produção musical que surgiram quando a música passou a ser feita com mouses e teclados. Conheça essa história. The post “Sla Radical” e a música “de computador” no Brasil dos anos 90 appeared first on NOIZE | Música do site à revista.

A relação de Fábio Fonseca com os teclados o conduziu aos postos de compositor, produtor musical e, com a sorte de um bom timing, de testemunha, propulsor e pioneiro quando o assunto é fazer música a partir de computadores.
Produtor do clássico de Fernanda Abreu, Sla Radical Dance Disco Club ao lado de Herbert Vianna, Fábio viveu, no Brasil, a excitação das novas linguagens de sequenciadores, samplers e sintetizadores. Ao longo dos anos 1990, porém, veria um certo movimento de nostalgia e busca por sonoridades orgânicas, mesmo que feitas a partir do digital. Se Fábio se lança como músico e produtor em meados de 1980, sua paixão por música o fez estar antenado nas transformações nas tecnologias musicais desde a adolescência.
“Nos anos 70, como adolescente, vi os pianos elétricos Rhodes e o Minimoog, que eu tenho até hoje, sintetizador clássico. Nos anos 80, tem essa parte do digital chegando, os teclados mudando, o computador entrando na jogada; acompanhei, vivenciei e usei tudo isso. Aí, nos 90, começou um pouco uma coisa retrô que foi interessante: eu não estou falando só de computador, estou falando dos instrumentos musicais, dos teclados que começaram a usar a tecnologia digital e que são quase computadores já que possuem dentro de si processadores. Essa onda vintage veio forte e, hoje em dia, existem esses dois mundos”, define.
Fábio e Fernanda se conheciam desde o início dos anos 80, já haviam inclusive tocado juntos na primeira banda de Fernanda, um projeto com Leo Jaime chamado Nota Vermelha, que durou pouco tempo antes dela entrar na Blitz. No final da década, Fábio foi convidado para o projeto solo da cantora, trazendo sua relação com a música computadorizada, que estava nascendo naquele momento. “Em 85 eu fui contratado por um americano que morava em São Paulo e tinha um computador com sequência de quatro canais. Foi a primeira vez que vi um computador. Era um PC, não era um Mac. E foi incrível! Eu estava totalmente dentro disso, devo ter sido um dos primeiros na segunda metade dos anos 80, ao lado de Joe Peterson, um amigo da Filadélfia, a usar o Mac computer na música brasileira, como um sequenciador”, revisita.
Dos teclados até essas novas possibilidades de fazer música, foi um pulo. “Começamos ir para os estúdios no Rio, por volta de 89, já usando sequencer dentro do computador. A Fernanda tinha muito interesse nisso e aí o Sérgio Mekler e, depois o Chico Neves, nos ajudaram muito na questão dos samples. Eu já tinha o sequencer, então sampleamos um monte de coisa”, rememora Fábio.
Sla Radical Dance Disco Club tornou-se uma espécie de documento do pioneirismo e da experimentação. Tido por Fábio como um dos álbuns mais marcantes de sua trajetória, uma das grandes façanhas aconteceu nos bastidores: a liberdade de criação dentro de uma grande gravadora. “Isso é um ponto interessante, é uma coisa de valor o artista ter liberdade. E a gente teve muita! Foi muito bacana para a Fernanda, como estreia da carreira solo, para mim, como um produtor que estava começando a carreira, e para o Herbert que, mesmo já estabelecido como um artista de uma superbanda de rock, ele também teve esse lado produtor que ajudou muito. É um disco realmente especial para mim”, atesta.
O ano de 90 era uma recente dobra na esquina da década anterior, os tão marcantes anos 80. Tendo o Brasil como pano de fundo, é importante perceber que o que era recente no mundo se tornava ainda mais recente aqui, fazendo que algumas produções desse ano ecoassem os ímpetos de experimentação e ineditismo das tecnologias ainda da década passada, como a recém-lançada tecnologia MID, que permitia a comunicação dos teclados com os computadores. Fábio faz questão de evocar outro nome pioneiro quando o assunto é música e PC: Lincoln Olivetti. “Ele é meu ídolo no sentido de arranjos pop, MPB. Um grande arranjador e tecladista atuante nos 70, 80 que já começava a usar a tecnologia dos computadores na música logo no início”, resguarda.
O músico, de curiosidade, foi se embrenhando cada vez mais na musicalidade computadorizada, utilizando-se de Mac Computers. O impacto da possibilidade de criar sonoridades a partir de uma interface – e não exatamente de um instrumento – foi gigante: “Isso foi revolucionário em todos os sentidos”, diz Fábio que reflete: “Na minha opinião estética, houve um tempo de um pouco de frieza. Em 80 o pessoal se empolgou muito com as baterias eletrônicas, tudo fica com cara de máquina, mas acaba sendo importante para determinar a marca sonora da segunda metade desta técnica. Mas, sim, foi uma mudança tecnológica que mudou a mentalidade dos músicos e produtores”. Ele cita até o clássico tensionamento humanidade x máquina, na qual alguns músicos e alguns segmentos, como a música erudita de orquestra, temiam perder o emprego para teclados e computadores com milhares de sons.
Analisando a música atual a partir do que ele vislumbrava para ela há 30 anos, Fábio garante que “de jeito nenhum” suas projeções foram assertivas. Um pouco por reflexo de ele estar mais interessado em viver a preciosidade do momento do que bancar o futurólogo: “Eu me lembro de tudo que vivi, mas não lembro de pensar sobre o futuro da música ou da tecnologia aplicada à ela. Eu estava vivendo o momento, um momento muito bom por sinal, e vivendo cada coisa que aparecia com aquela animação, tentando assimilar a nova tecnologia”. Aguardando a palavra final sobre o debate do analógico x digital? Não espere por adversativas: “O que temos hoje é o analógico e o digital convivendo harmoniosamente para oferecer tudo que há de melhor”, considera Fábio.
Esta matéria foi publicada originalmente na revista Noize que acompanhava o vinil de “Sla Radical Dance Disco Club”, de Fernanda Abreu, lançado em 2020.
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