Nove exposições para ver em São Paulo

Em tempos de crise e tensão, artistas e curadores idealizam exposições que questionam a nossa percepção e sugerem debates sobre resistência e forças que ainda mantém de pé uma sociedade na iminência de um colapso. Propõem uma revisão do olhar e da própria História da Arte, combatendo paradigmas cristalizados e políticas preocupantes e controversas que […] O post Nove exposições para ver em São Paulo apareceu primeiro em Harper's Bazaar » Moda, beleza e estilo de vida em um só site.

Apr 2, 2025 - 18:49
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Nove exposições para ver em São Paulo

Pan de Queijo, de Guglielmo Castelli – Foto: Divulgação

Em tempos de crise e tensão, artistas e curadores idealizam exposições que questionam a nossa percepção e sugerem debates sobre resistência e forças que ainda mantém de pé uma sociedade na iminência de um colapso. Propõem uma revisão do olhar e da própria História da Arte, combatendo paradigmas cristalizados e políticas preocupantes e controversas que estão emergindo em todo o planeta. 

Enquanto Marcius Galan, Carlos Zilio e Guglielmo Castelli retomam discussões sobre o fascismo e a ditadura militar como um alerta sobre os dias atuais, Marco Maggi e Lia D Castro jogam com o nosso olhar criticando sistemas orientados pelo patriarcado e por políticas violentas – pense nas atitudes de Putin e no problema dos imigrantes nos EUA. Mas o ambiente sombrio e a possibilidade de morte não são necessariamente vistos com pessimismo. Paralelamente, as coletivas Românticos e Tecendo o Amanhã apresentam o fim como potência de novos recomeços. 

Vale mergulhar, ainda, no universo de Eleonore Koch e Ana Amorim para refletir sobre as poesias do cotidiano e os vestígios de nossa própria existência. Entre individualidades poderosas e coletivas poéticas, confira as melhores exposições em cartaz na cidade.

1. Passantes, individual de Lia D Castro na galeria Martins & Montero

Conhecida por questionar processos e noções de identidade, privilégio, vulnerabilidade e poder, Lia D Castro apresenta nova série desafiando a representação na História da Arte com um gesto simbólico: ela compra de pinturas com os temas de naturezas-mortas e paisagens em antiquários, sobre as quais pinta pés de homens que foram criados por mulheres — mães, tias, avós —, dentro de um sistema matriarcal. Trata-se, portanto, de uma postura crítica diante do patriarcado e de paradigmas cristalizados na própria história da pintura. 

Passantes, de Lia D Castro – Foto: Divulgação

A proposta da artista inclui, ainda, um jogo visual que desestabiliza a leitura comum desses gêneros de pintura ao posicionar os pés de ponta cabeça, nos convidando a olhar para o trabalho de arte sob um novo ângulo. Essa inversão também sugere uma releitura da história da arte, desafiando a persistente “retina colonial” – termo utilizado pela artista para descrever a visão eurocêntrica que moldou a produção e a recepção das imagens ao longo dos séculos. Inspirada no pensamento do filósofo Achille Mbembe sobre a condição do estrangeiro como “passante”, Castro sugere, ainda, discussões sobre fronteiras, limites e exclusões.

2. A pintura como revolução, individual de Guglielmo Castelli na Mendes Wood DM

A superfície da pintura, de fato, não é uma expressão de seu virtuosismo técnico. É o campo de batalha no qual Castelli dá sentido à cultura que o cerca: o peso da herança, a relação da alta cultura com o conservadorismo versus o popular, as influências de tudo isso em sua imaginação e a possibilidade de uma reviravolta total”, pontua Sofia Gotti no texto de apresentação da individual de Guglielmo Castelli. Pintor interessado em literatura e com experiência em cenografia – o que garante o ar dramático de suas telas e montagens, Castelli molda sua prática de pintura a partir de discussões sobre o exercício de e a sujeição ao poder que o atravessam: desde o debate sobre a estética do fascismo que surgiu recententemente na Itália pelo lançamento de uma série de televisão baseada no romance premiado de Antonio Scurati, M Son of the Century, sobre a ascensão de Benito Mussolini ao poder, até questionamentos sobre a recente reforma educacional de seu país que visa devolver a Bíblia a todas as salas de aula. 

37 Years, de Guglielmo Castelli – Foto: Divulgação

As mensagens políticas, entretanto, não são explícitas ou narradas. O artista italiano nos apresenta corpos contorcidos e fragmentados, membros, máscaras, flora e fauna em atmosferas sedutoras e oníricas com um quê  gótico, onde o horror tem importante papel nos processos de recuperação, renegociação e reimaginação”, como propõe Gotti. O horror e a reconexão com o visceral, aqui, tornam-se estratégias para a revisão e reconstrução da sociedade em tempos profundamente conservadores.

3. Mecânica dos meios contínuos, individual de Marcius Galan na galeria Luisa Strina

Conhecido por desafiar nossa percepção reelaborando espaços, Galan apresenta novos trabalhos que exploram o conceito de limite e resistência – em seu sentido físico e simbólico. O maior destaque é Cinema – um sistema de luz suspenso do teto simula o voo de dois vagalumes dentro de uma sala totalmente escura. Além de explorar a percepção cinética, na qual o cérebro humano interpreta as piscadas de luz como movimento, Cinema presta homenagem a Pier Paolo Pasolini que comparou, em carta a um amigo, o desaparecimento dos vaga-lumes à extinção da resistência ao fascismo na Itália. Segundo ele, a luz da propaganda fascista era tão intensa e uniforme que apagava nuances, a poesia e a própria resistência política.

Baixa resolução, de Marcius Galan – Foto: Divulgação

A segunda sala da galeria é ocupada por objetos e instalações que aparentam estar à beira do colapso, resistindo por uma combinação de peso e resistência dos  materiais. Orbital é uma grande composição de placas pintadas com tinta automotiva preta sobre as quais são dispostas pedras minerais. Esses elementos determinam as órbitas de objetos cortantes que riscam a superfície industrial dos módulos. O atrito entre os materiais desenha padrões geométricos similares aos traços de um compasso, criando um contraste entre a delicadeza das linhas e a agressividade do movimento que as inscreve na superfície. O título da mostra refere-se a uma área da física dedicada à formulação matemática dos fenômenos relacionados ao movimento e à deformação dos corpos sob a ação de agentes externos.

4. Românticos, na galeria Yehudi Hollander-Pappi

A coletiva traz a explosão de uma estrela como metáfora para reunir artistas que refletem poeticamente sobre a morte como a possibilidade de renascimento ou criação.  De acordo com o texto da mostra, o estudo de fenômenos celestes, como as supernovas, oferece insights sobre os mecanismos astrofísicos fundamentais que governam a evolução estelar e a nucleossíntese cósmica. A Supernova de 1572, uma explosão do tipo Ia observada por Tycho Brahe, contribuiu para a reavaliação da cosmologia aristotélica e impulsionou o desenvolvimento da astronomia moderna.  Foi, ainda, motivo de inspiração para muitos artistas que representaram o céu da época com duas luas – sendo uma o satélite natural da Terra e a outra a explosão da estrela que resultou numa luz contínua no espaço celeste. 

Românticos, na Galeria Yehudi Hollander-Pappi – Foto: Divulgação

Entre os destaques estão os trabalhos de Anne Imhof, Adrian Villar Rojas, Julia Gallo, Juliana Frontin, Juno B, grupo MEXA, Apichatpong Weerasethakul, Stephanie Lucchese e Samuel Alves de Jesus. Todos reverberam as palavras de Mia Couto, em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra: A morte foi o mais intenso dos relâmpagos, uma estrela em explosão. Um sol surgindo à vista, a tal ponto que tudo se torna visível apenas na sombra. Eu disse e digo novamente: sombra, a ocorrência de um futuro já existente. — Não vamos ao céu. O contrário acontece: o céu entra em nós, nos nossos pulmões. Uma pessoa morre sufocada por uma nuvem.

5. Carlos Zilio – A Querela do Brasil, no Itaú Cultural

Um dos mais relevantes artistas da história da arte nacional, Carlos Zilio ganha interessante retrospectiva que suas respostas estéticas a estímulos sociais, pessoais e teóricos, sempre questionando o sentido político da arte, do sistema e de seu próprio papel como artista e cidadão. Entre os destaques a dramática sala de desenhos criados durante os dois anos e quatro meses em que o artista esteve na prisão – Zilio foi baleado e preso quando protestava com operários em plena ditadura militar. Vale notar, ainda, as estratégias formais estabelecidas pelo artista para burlar a censura da época e expressar o sentimento de tensão que dominava o país na época. Entre elas, o obras minimalistas denúncias que indicam situação de tortura e instalações com objetos na iminência de um colapso que geram angústia e apreensão no próprio corpo do espectador. Vale notar, ainda, a sala de pinturas criadas pelo artista depois do exílio em Paris, nas quais ele homenageia e questiona mestres do modernismo brasileiro.

6. Marcos Maggi – La Sociedad Subatômica, na Galeria Nara Roesler

O artista uruguaio volta ao Brasil para mostrar trabalhos recentes feitos, em sua maioria, a partir de pequenos fragmentos de papeis recortados de forma minuciosa, quase obsessiva. A princípio, os trabalhos de Maggi parecem silenciosos, e, em alguns casos, quase imperceptíveis. A escala miniaturizada convida o público a um olhar atento: de longe parecem abstrações silenciosas, mas, ao se aproximar, o público logo percebe que o artista cria sistemas complexos, que podem ser desde um circuito eletrônico até uma malha urbana. Maggi joga com escalas e percepções – sempre criticando o olhar contemporâneo pautado pelo excesso de velocidade, imediatismo e voracidade.

Marcos Maggi – La Sociedad Subatômica – Foto: Divulgação

Para Maggi, sua exposição tem uma ligação direta com o universo das ciências naturais, em especial na virada da Física Clássica para a Física Quântica, ocorrida na primeira metade do século XX. Essa relação nos é introduzida pelo título A Sociedade Subatômica. Enquanto a Mecânica Clássica se ocupa das forças que agem em corpos geralmente maiores que um átomo, a Física Quântica nos lança justamente sobre o universo subatômico, onde “aumentam as instabilidades, as incertezas e as imprecisões”. O objetivo é questionar a sociedade contemporânea na iminência de um colapso. Não à toa, ele faz críticas, em alguns trabalhos, às estruturas políticas mundiais – desde as atitudes controversas de Vladimir Putin até a crise dos imigrantes nos EUA que estampou as capas de jornais nos últimos meses.

7. Tecendo o Amanhã, na Pinacoteca

Com o desejo de  investigar perspectivas de artistas de diferentes origens e tempos sobre a experiência da noite, com seus mistérios, personagens e ritos, os curadores Renato Menezes e Thierry Freitas dividiram a coletiva em sete núcleos que propõem desde reflexões sobre os impactos da modernização nas cidades no século XX que, com surgimento da energia elétrica, transformaram as paisagens noturnas,  até narrativas mais fantásticas e imaginativas, com direito a enigmas oníricos e os assombros que povoam o imaginário coletivo. 

Com a apoio de um projeto de iluminação expográfica delicado e poético, a exposição começa, conceitualmente,  com o anoitecer; ganha força no auge da noite – a sala de lua cheia, lobos e lobisomens é a mais impactante; e, termina com o amanhecer.  Aqui a experiência da noite se apresenta como um problema artístico para refletir sobre vivências individuais, que aparecem, por exemplo, nas representações de sonhos e pesadelos, e coletivas, que dizem respeito a formação histórica e social do país.“A exposição privilegia a produção de artistas ditos populares, e a coloca em relação direta com trabalhos de artistas canônicos do nosso modernismo, muitas vezes criando situações de tensão entre essas diferentes vivências da noite. Ao longo da exposição, percebemos que a noite, um fenômeno natural que afeta a todas as pessoas, reflete problemas artísticos, relativos à luminosidade e à representação dos sonhos e visões, mas também problemas sociais, relacionados ao trabalho, à coletividade e ao uso do espaço público”, comentam os curadores.

8. Não são coisas do cotidiano, só parecem, individual de Eleonore Koch na Galeria Paulo Kuezynski

“Se em 1949 vemos os passos iniciais da jovem estudante de escultura, já em 2001 testemunhamos o refinamento máximo de sua sensibilidade técnica e emocional, lentamente depurada ao longo de ausências e solidões”, pontua o historiador Giancarlo Hannud diante do panorama de Eleonore Koch exposto na nova sede da galeria. “Ambas as pinturas destacam sua incessante busca pelo ordenar das coisas do mundo, possivelmente como resposta à desordem ao seu redor. Enigmáticas e distantes, elas nos provocam curiosidade e reflexão sem nunca se entregarem completamente na manipulação de suas cenografias do humano.”, conclui. 

Sem título, 1967 – Foto: Divulgação

A mostra reúne um conjunto representativo de obras que traçam a trajetória de Eleonore, desde seus primeiros trabalhos até suas últimas criações, resgatando sua amizade com Volpi, seus anos em Londres como tradutora na Scotland Yard e sua relação com o aristocrata Alistair McAlpine, mecenas que colecionou várias de suas obras. Trata-se de um belo convite para refletir sobre a poesia do cotidiano e das sutilezas ao nosso redor.

9. 27032025-6.720-280-68 / 24052025-5.328-222-68, individual de Ana Amorim na Galeria Superfície

Com uma prática artístico-conceitual centrada no registro de seu cotidiano, Ana Amorim apresenta sua primeira exposição na Galeria Superfície marcando a nova representação.  É interessante notar a forma metódica, e seus desdobramentos plásticos, com que a artista registra o tempo da própria vida, suas experiências e deslocamentos, transformando cada trabalho em uma prova inequívoca de sua existência. Entre os passos de sua vida pessoal é possível notar, ainda, pontuações sobre fatos vistos e vividos pela humanidade, como a pandemia do Covid 19 ou guerras que assolam o Oriente Médio. 

Desde 1987, quando seu projeto toma a forma de Mapas Mentais, Ana Amorim acumula registros  visuais de sua vida marcada nos Livros de Mapas (1987/88), – uma coleção de cadernos-diários onde ela desenha o percurso feito naquele dia e faz observações pessoais sobre os fatos e sentimentos daquele período. No livro acontece o primeiro registro, rápido e espontâneo, que marca mais um dia de sua existência, enquanto as obras são resoluções estéticas para representar um tempo determinado pela artista.  O próprio título da exposição reitera o exercício sistemático de registro adotado pela artista, pois parte dos localizadores utilizados por Amorim para demarcar sua produção, fazendo referência tanto ao tempo fixado nos calendários (horas, dias, meses e anos da feitura da obra), quanto ao tempo fugidio — as horas e os dias restantes para o final do ano, por exemplo.

GuueijVale notar que o seu processo artístico se deu a partir de dois manifestos: Decisões Conceituais (1988) e, posteriormente, o Contrato de Arte (2001). Esses documentos, com definições rigorosas — como a utilização de materiais simples e recusa à mercantilização ou participação em exposições patrocinadas por empresas com condutas éticas questionáveis — determinaram a postura que manteve sua produção alheia aos circuitos comerciais por 3 décadas.  “O que os contratos de Amorim expressam é um forte desejo de estarem vinculados ao seu comprometimento com o fazer artístico, de tornar pública sua vontade de integrar arte e vida. Esse compromisso formal com o fazer artístico torna explícita a diferença entre produzir arte (por si só) e ser um produtor de arte (para um sistema que demanda)”, observa Gabriel Pérez-Barreiro.

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