O que são Incels em Adolescência? A verdade por trás da série da Netflix

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Mar 29, 2025 - 00:24
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O que são Incels em Adolescência? A verdade por trás da série da Netflix

Nem toda série criminal foca em uma investigação intrincada em busca do grande assassino. Algumas vão além, escavando as motivações mais desconfortáveis de seus personagens. Esse é o caso de Adolescência, minissérie britânica que estreou na Netflix e logo se destacou por sua narrativa e pela abordagem nada convencional.

Ao invés de manter o mistério até o fim, a série revela já no primeiro episódio que Jamie Miller, de apenas 13 anos, assassinou sua colega de escola. A pergunta que move os episódios seguintes não é “quem matou?”, e sim “por que ele fez isso?”. A resposta, ao que tudo indica, passa por um universo sombrio de machismo e misoginia: o da cultura incel.

A origem e transformação do termo “incel”

O termo “incel” surgiu nos anos 1990 e buscava criar um espaço de apoio para pessoas com dificuldades em relacionamentos. Com o tempo, porém, o conceito foi deturpado e apropriado por grupos de homens heterossexuais cisgênero que canalizam frustrações amorosas em ódio contra mulheres.

Hoje, incels são geralmente associados a comunidades online em que predominam discursos misóginos, vitimismo e teorias conspiratórias sobre gênero e atração. Entre as ideias mais comuns está a de que apenas homens bonitos — os chamados “Chads” — têm acesso a mulheres, enquanto o restante estaria condenado à solidão afetiva.

A série explora esse tema de forma explícita, especialmente a partir do terceiro episódio, quando Jamie conversa com a psicóloga Briony e, durante as sessões, revela que se identifica com a cultura incel e que foi rotulado como tal por Katie, a garota que mais tarde se tornaria sua vítima. A partir daí, as camadas do personagem vão se revelando com desconforto crescente.

Jamie não entende bem os limites entre rejeição e humilhação. Alimentado por conteúdos misóginos online, ele constrói uma percepção distorcida sobre si mesmo, sobre as mulheres e sobre os relacionamentos. A série mostra como esse tipo de influência se infiltra silenciosamente na mente de adolescentes vulneráveis, muitas vezes sem que os adultos percebam.

Esse aspecto fica ainda mais evidente quando vemos a dificuldade do detetive Bascombe em entender o vocabulário e os códigos que Jamie e seus colegas usam na internet. Termos como “red pill” e “blue pill”, retirados da ficção científica, ganham novos significados nesses grupos, sendo usados para distinguir quem enxerga “a verdade” do mundo sob a ótica incel e quem ainda vive em “ilusão”.

A presença da manosfera na trama

Além dos incels, a série também aborda a chamada “manosfera”, uma rede de grupos virtuais que propagam ideias machistas sob diferentes disfarces. Essa manosfera engloba desde fóruns até comunidades que defendem a supremacia masculina, passando por influencers que disfarçam ódio com discursos de autoajuda.

Dentro da trama, personagens como Ryan — que entrega a faca para Jamie — também demonstram como esse ambiente influencia jovens com baixa autoestima e uma visão deturpada de masculinidade. Outro exemplo é Eddie, pai de Jamie, um homem que tenta ser justo, mas carrega consigo resquícios de uma masculinidade tóxica que o impede de enxergar certos sinais no próprio filho.

Esse cenário se torna ainda mais assombroso quando, no episódio com a psicóloga, percebemos que Jamie não entende o que foi feito de errado e que, para ele, sua atitude criminosa é justificada pela rejeição da garota: “foi tudo culpa dela”.

Esse, infelizmente, é um retrato cru da realidade onde mulheres são constantemente culpadas por atitudes criminosas de homens misóginos. Em um mundo onde frases como “com essa roupa estava pedindo” são proferidas como verdades incontestáveis, reafirmadas por um sistema criminal que não pune de forma objetiva, ter esse cenário protagonizado por crianças expõe uma realidade que muitos enxergam, mas poucos conseguem ver.

Para Jamie, ele estava em seu lugar de direito, tomando algo que o pertencia: sua dignidade roubada. Com uma mente consumida por fóruns e discursos de ódio fomentados pela grande maioria dos garotos de seu convívio, sua mente influenciável não foi capaz de conceber a brutalidade de seus atos.

O alerta por trás da ficção

Adolescência não apresenta estatísticas ou teses acadêmicas, mas seu roteiro é construído com base em pesquisas reais. Questões como o chamado “80/20 rule” — ideia falsa de que 80% das mulheres desejam apenas 20% dos homens — são mencionadas como parte da lógica incel e aparecem na fala de Jamie, evidenciando como essas narrativas ganham força entre os jovens.

Jack Thorne, cocriador da série, afirmou que o objetivo era justamente mostrar como um garoto comum, de uma família estruturada, pode ser levado a cometer um crime ao entrar em contato com discursos de ódio propagados em larga escala. Jamie não nasceu violento, ele foi absorvido por um sistema que se sustenta por meio do ressentimento de meninos solitários.

Por isso, mais do que contar uma história policial, Adolescência atua como um alerta social. É um convite à conversa, especialmente entre pais e filhos, sobre o que está acontecendo nos bastidores da internet. Um lembrete de que o perigo nem sempre está longe e que, muitas vezes, começa com um vídeo, um fórum, ou uma frase dita entre adolescentes em um grupo de mensagem.

Adolescência está disponível na Netflix.

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