‘Anónimos de Abril’: as histórias esquecidas da Revolução dos Cravos

O livro de José Fialho Gouveia, Rogério Charraz e Joana Alegre nasceu como um projecto musical, para dar voz às personalidades esquecidas do 25 de Abril.

Apr 2, 2025 - 18:45
 0
‘Anónimos de Abril’: as histórias esquecidas da Revolução dos Cravos
‘Anónimos de Abril’: as histórias esquecidas da Revolução dos Cravos

"Onde é que tu estavas no 25 de Abril?" não é apenas uma pergunta que o jornalista Armando Baptista-Bastos fazia no programa Conversas Secretas – ou Artista Bastos, personagem interpretada por Herman José, na sua caricatura do jornalista e escritor. É um ponto de partida para recordar este momento histórico e para perceber como aconteceu a Revolução dos Cravos, que devolveu a democracia a Portugal.  

Esta é também é uma pergunta respondida diversas vezes em Anónimos de Abril, um livro-disco de José Fialho Gouveia, Rogério Charraz e Joana Alegre, cujo primeiro volume chegou às livrarias a 20 de Março, numa edição da Livros Zigurate. O lançamento aconteceu esta terça-feira, 1 de Abril, no Museu do Aljube, com uma apresentação que contou com os autores e ainda com Nuno Artur Silva, Carlos Vaz Marques e Aurora Rodrigues, que protagoniza um dos capítulos desta obra. 

Tudo começou como um projecto musical criado pelos autores do livro. O objectivo não era cantar sobre figuras como os Capitães de Abril ou músicos de intervenção, mas sim sobre pessoas que acabaram por ser esquecidas ou ignoradas pela história. 

Depois de cerca de 20 espectáculos, acharam que fazia sentido explorar e oferecer mais contexto às histórias que existiam em formato de canções. “As histórias são tão ricas que fazia sentido explorá-las e desdobrá-las”, diz à Time Out Rogério Charraz, responsável por musicar as faixas. 

Nas páginas de Anónimos de Abril podemos encontrar histórias de figuras como dos quatro mortos de Abril (Fernando Gisteira, José Barneto, João Arruda e Fernando Reis) ou de Celeste Caeiro. A mulher que morreu em Novembro do ano passado foi a responsável por entregar os cravos aos soldados de Abril – uma vez que não tinha cigarros, como os homens lhe tinham pedido –, flores essas que acabaram por se tornar o símbolo mais associado a este momento.  

“Quando começámos este projecto, a Celeste serviu como ponto de partida. A primeira vez que me cruzei com a sua história foi numa rede social. Fiquei emocionado e surpreendido por não a conhecer. Isso levou-me a pensar, se eu, que tantas vezes trabalho nesta área e que sou fã dos cantores de Abril, não conheço esta história, com certeza a minha geração e aqueles que vieram depois de mim também não a conhecem”, descreveu o músico. 

Mas não faltam mulheres esquecidas pela História. E Anónimos de Abril dá atenção especial às que lutaram contra a ditadura. Foi assim que se esbarraram no caso de Aurora Rodrigues. Escrito na primeira pessoa, a magistrada de Évora descreve no livro as torturas a que foi sujeita pela PIDE, como a privação de sono, que a deixaram com alucinações. “A história depende de quem a vê e quem a conta”, disse Aurora durante a apresentação. “Às vezes é feita em função de uma mentira, e, sobretudo nos tempos que correm, isso pode ser extremamente perigoso”, referiu.  

Aurora, de 72 anos, reforçou a importância de partilhar a história de todos os “anónimos”, enquanto ainda existem pessoas com capacidade para partilhar os seus episódios de resistência. “Temos de pensar nos anónimos. Os heróis não existem. É uma coisa tão simples quanto isto: há circunstâncias e razões para lutar. Os tempos que correm são um apelo à luta, não à desistência. Enquanto estas pessoas estão vivas e nos lembramos delas, devemos transmitir os seus ideais e dizer os nomes daqueles que não lutaram apenas um dia, lutaram a vida inteira”, afirmou. 

“Há aqueles que saem do anonimato para serem Trumps, Putins, Le Pens ou Venturas. Todos os dias, ouvimos falar neles e é preciso que deixemos. É por isso que temos estes anónimos. Em vez desses, digamos estes nomes”, rematou. 

Agora que o livro está publicado e apresentado, a equipa prepara os próximos passos. Prometem um segundo volume e já tem mais espectáculos marcados – em Abril, dia 24 em Alcanena, 25 em Marco de Canaveses e 26 em Esposende. Mas que outras figuras podemos esperar encontrar numa futura continuação deste trabalho? Nem os próprios criadores sabem ao certo.  

“Neste momento, estamos em recolha de histórias. Já recebemos algumas, já começámos a trabalhar numa ou outra e vamos criar um site onde as pessoas podem partilhar as histórias de familiares ou mesmo a sua própria história”, esclareceu José Fialho. “A próxima história que queremos incluir no livro é aquela que ainda não conhecemos".