Absurdo nas academias: influencers gravam conteúdo +18 em público
Criadores de conteúdo produzem imagens obscenas em academias e compartilham as filmagens em plataformas como TikTok e Instagram

Gravar conteúdo adulto nas academias é a nova febre da internet. Durante os exercícios físicos, os influenciadores passam suas partes íntimas nos aparelhos e sensualizam para o vídeo. O material é divulgado em redes sociais com o objetivo de atrair assinantes para plataformas como OnlyFans e Privacy. Por isso, o debate sobre criar vídeos adultos em locais públicos têm crescido nas mídias.
Um exemplo recente foi o caso de Indianara Jung, influenciadora de 32 anos com mais de 1 milhão de seguidores. Ela foi banida das academias Wave, em Santa Catarina, e Physical, no Rio Grande do Sul, após publicar vídeos nos quais tocava suas partes íntimas, cobertas por roupas, nos aparelhos de musculação. O conteúdo foi filmado durante o horário comercial das academias, com outros alunos ao fundo, viralizando rapidamente no TikTok.
Gravar conteúdo adulto nas academias é estratégia de marketing
O caso de Indianara não é isolado, mas a semelhança entre os vídeos explica algo maior: a estratégia para ganhar visibilidade nas redes sociais e aumentar o número de assinaturas em plataformas de conteúdo adulto, atendendo aos fetiches de seus seguidores.
Tal prática gera preocupação entre especialistas por contribuir para uma percepção superficial e performática da sexualidade. “Ainda há muitos tabus a serem desconstruídos, como o mito de que apenas corpos considerados ‘perfeitos’ são desejáveis ou excitantes”, explica Luciane Cabral, sexóloga do Gleeden Brasil.
Relacionar exercícios físicos a algo sensual e excitante também causa seus efeitos negativos. Com o tempo, as pessoas podem começar a associar movimentos de fortalecimento muscular a esse tipo de conteúdo, o que pode gerar receio e afastamento das atividades na academia.
“Gravar ou consumir conteúdo sexual em espaços públicos, como academias, distorce a função original desses locais, que são voltados para promoção da saúde e do bem-estar”, explica Erica Mantelli, ginecologista, obstetra e especialista em saúde sexual. As pessoas que aparecem nos vídeos e as próprias academias podem buscar a legislação, mas o gigante alcance das publicações deixa rastros a longo prazo.

Conteúdo adulto afeta principalmente os jovens
A crescente exposição de conteúdo adulto tem impactos para além das academias. Esse fenômeno tem acelerado o acesso de crianças e adolescentes a materiais pornográficos. Estima-se que a idade média de exposição à pornografia é aos 11 anos. Se antes era preciso acessar revistas, ver filmes ou esperar os programas da madrugada; hoje tudo ficou mais fácil: a internet facilita o acesso por meio de sites, vídeos e redes sociais.
Não é por acaso que a indústria pornográfica é um dos maiores segmentos da web, representando cerca de 12% de todo o conteúdo online, com o Brasil sendo um dos maiores produtores de vídeos de pornografia. Mas há consequências.
“Antigamente, a compreensão sobre a vida sexual era construída de forma mais gradual, e muitas pessoas só descobriram como seria uma relação sexual no momento da experiência. Agora, a sexualidade está sendo moldada por imagens detalhadas disponíveis na internet, em cérebros que ainda não possuem a maturidade para discernir entre o que é real, saudável, consensual, profissional, ético ou permitido”, pontua Luciane.
Basicamente, o cérebro dos jovens passa por um período de desenvolvimento que só atinge sua maturidade pelos 24 ou 25 anos. “O impacto da exposição precoce a conteúdos adultos pode ser devastador. Muitos acabam baseando suas referências nesses vídeos, que, em grande parte, são dominados pela pornografia exagerada e irreal”, completa a especialista.
Tudo isso acontece sem que a educação sexual chegue a eles. “A pornografia tem ocupado o lugar da educação sexual. Essa substituição é extremamente nociva, pois transmite ideias distorcidas sobre o sexo, como a ausência de consentimento claro e a desumanização do parceiro, muitas vezes com práticas agressivas”, diz Erica. O resultado são problemas como baixa autoestima, disfunções sexuais, vícios e até depressão.
A relação com os fetiches
Há ainda outro ponto sobre os vídeos: os fetiches. “Eles são parte da diversidade da sexualidade humana e podem surgir de forma espontânea, associativa (experiências passadas), condicionada (reforço do prazer) ou até por eventos traumáticos que foram erotizados pelo cérebro como forma de defesa”, esclarece Erica.
O fetiche pode ser tornar patológico [classificado como transtorno parafílico], porém, quando:
- Causa sofrimento significativo para o indivíduo;
- Interfere no funcionamento social, afetivo ou sexual;
- Coloca a pessoa ou o outro em situações de risco físico ou emocional;
- Substitui completamente a intimidade relacional por fantasias compulsivas.
“Nesses casos, o fetiche pode estar mascarando questões emocionais profundas, traumas não elaborados ou compulsões sexuais. A abordagem terapêutica deve ser ética, livre de julgamentos e focada em restaurar a saúde sexual com base no consentimento, no equilíbrio e no respeito à individualidade”, finaliza Erica Mantelli.
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